Produtora de uma nova safra de vídeos bacanas, descolados e que não agridem a inteligência do espectador, a EdrFilmes vem mostrando que é possível, sim, fazer Cinema Experimental no Brasil e divulgá-lo na Internet. Josias Pereira, um dos membros, concedeu essa entrevista onde revela que "o público está a procura de algo inovador e começando a escolher o que deseja assistir."
1) Como começou a ErdFilmes?
A ERD Filmes iniciou seus trabalhos em 1992, sob a direção do diretor e roteirista Josias Pereira, desde então já realizou mais de 90 vídeos de ficção. Trabalhamos com vídeos sociais e educacionais, tentamos contribuir com a sociedade, fazendo vídeos que reflitam um pouco a realidade nacional. Para isso, utilizamos a ficção e a linguagem surreal. Em todo trabalho tentamos realizar alguma pesquisa de linguagem ou pesquisa social, assim contribuindo com o audiovisual brasileiro, buscando caminhos paralelos à linguagem que impera na TV brasileira. .
2) Como é o processo criativo da equipe?
Realizamos vídeos com temáticas sociais e educacionais. Sempre levantando um debate para a sociedade. Realizamos a linguagem surreal como narrativa principal. Tentamos ver os desejos, traumas, sonhos e medos da sociedade e a colocamos em um vídeo como um espelho para criar a reflexão e o debate.
3) Qual o papel da Internet para jovens cineastas?
Acho que os novos site de exibição de vídeo tem criado um espaço mais plural e democrático para os jovens cineastas que fora dos festivais tem pouco, ou nenhum espaço de exibir suas obras. O vídeo passa por um momento de busca de linguagem e estruturação. Temos um publico com desejo de conhecer novas produções, porem o que vemos na Internet em alguns casos são vídeos da TV que são postados por espectadores ou vídeos amadores feitos só para mostrar a “galera’. E percebemos que o publico esta a procura de algo inovador e começando a escolher o que deseja assistir. Por isso, acho que os jovens diretores que estão a procura de uma linguagem tem um espaço considerável para poder mostrar seus trabalhos.
4) Na sua opinião, a atriz Lígia Dechen é bonita ou gostosa?
Rs. Bem, a atriz, Lígia Dechen, é casada com um grande amigo meu, Cláudio Garcia, que contracena com ela no curta. E ela, agora mãe da Alice, é com certeza muito bonita!
terça-feira, 31 de julho de 2007
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Pira-pirou e o Camus Soteropolitano
Ainda que os purista e os filisteus da arte defendam que o moderno vídeo-clipe - enquanto artefato cultural - é essencialmente anti-narrativo, há belas excessões onde a evocação carnal de um aedo inspirado pelo vinho e pelas musas reverbera nas cordas do mais punjante axé music. No folclórico vídeo pira-pirou de Hermes e Renato, as faculdades narrativas dissecadas por Ricouer, Barthes e Cia Ltda, são utilizadas com brilhantismo pelo grupo. O vídeo-clipe conta a história trágica de um crime cometido nas areias quentes de Salvador. Impossível não lembrar o célebre assassino de Camus entorpecido pela sensualidade sanguínea do sol.
sexta-feira, 27 de julho de 2007
O Sinatra brasileiro
Finíssimo integrante do mainstrean cultural brasileiro desde os anos 60, Miele é um tipão que abarca, no mesma fisionomia, um leque de personalidades distintas e complementares: O Playboy, o Bon-vivant, o Classudo, o Intelectual, o Intertainer, o Canalha e o Boa Praça. Praticamente um Sinatra brasileiro. Miele exala elegância, bons modos e frivolidade em todos os seus gestos. É fácil imaginá-lo tomando chá com a aristocracia inglesa, circulando pelo circuito milionário da fórmula 1 ou frequentando festas de extravagantes ditadores africanos regadas à champagne e camarão. Sempre alinhado e de bom humor, conserva ainda um quinhão de canalhice em seu coração. No programa que apresentou no SBT, Cocktail (poderia ser outro nome?), ele comanda uma cínica disputa cujo único prêmio é consolar o espectador com alguns segundos de peito-lê-lê das sorridentes dançarinas chamadas carinhosamente de Laranjinha, Moranguinho, etc. O programa é de uma delicadeza quase insuportável. Muitos sorrisos, gracinhas e um arzinho dissimulado de sacanagem sofisticada.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Novo clipe de Ednaldo Pereira é pura poesia
O novo vídeo-clipe de Ednaldo Pereira é um trabalho belamente realizado, com enquadramentos originais em um cenário deslumbrante. O diretor se aproximou, talvez involuntariamente, ao realizar esse video-clipe comercial, do chamado "cinema puro" francês, a vanguarda surrealista que primava pela poesia visual em detrimento de uma suposta linearidade do roteiro. A canção, pontuada por um dedilhado provocante, uma mistura de esquizofrenia psicodélica à la White Stripes com o molejo de uma moda de viola bem brasileira, se encaixa perfeitamente com a proposta visual: Ednaldo Pereira é uma estrela. Tem presença de palco e de tela. Canta como um predestinado. É melhor do que Elvis, Roberto Carlos e Fábio Júnior juntos e multiplicados. O Brasil, havia tempos, precisava de uma estrela desse naipe.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
I Like Bunda!
É simplesmente impressionante assistir ao governador reeleito da Califórnia, no começo dos anos 80, fazendo um programa infame sobre o Carnaval do Rio de Janeiro. Schwarzenegger, grande como um minotauro, faz o papel de um gringo enfeitiçado pelas delícias dos trópicos. Ao mesmo tempo ingênuo e safado, o grandalhão sarra nas mulatas, toma caipirinha e se diverte com a promiscuidade tropical que ele provavelmente não conhecia na sua gélida terra natal. O filme é de um cinismo e uma hilariedade que dificilmente serão repetidos novamente na história do cinema. Uma conjunção de fatores fazem com que esse tipo de filme seja tão fabuloso: o formato televisivo estilo "Uma viagem etnográfica ao país da sacanagem", a safadeza dissimulada de Schwazenegger, o ranço politicamente incorreto de meados dos anos 80, a inocência das mulatas sambam e se esfregam na gringalhada. Numa das cenas, ele simplesmente fica repetindo "bunda... bunda... i like bunda..." como um Butt-head paralisado ante um videoclipe porno-psicodélico. Imperdível.
terça-feira, 24 de julho de 2007
Alegoria Urbana
Brilhante a execução formal de O Assalto Nosso de Cada Dia, uma divertida alegoria sobre a promiscuidade tipicamente brasileira entre bacanas e favelados. O filme lembra o supracitado Os Pobres Vão à Praia, mas com um estilo menos documental. Na pequena fábula urbana protagonizada por um carioca engomadinho e um neguinho (parecido com o Robinho, como lembrou algum desocupado na comunidade do YouTube no orkut), o assalto transforma-se num bate papo que vai, naturalmente, após muitas barganhas, terminar em um restaurante. Filmado em estilo clássico e utilizando de forma convencional o plano médio, o plano americano e o primeiro plano (particularmente no close do assaltante), o filme pode até prescindir dos alternativos enquadramentos oblíquos (que provocam a sensação de desepero písquico e desequilíbrio)já que a própria essência do roteiro se estrutura sobre uma espécie de diagonal metodológica com resquícios de um atonalismo social encontrado somente no mais punjante cinema artesanal.
Uma relíquia do documentário brasileiro
Assistam: Os pobres vão à praia, um filme delicioso produzido pelo extinto Documento Especial, de 1989, é ao mesmo tempo hilário e político. Retrata a “luta de classes” nas areias da Zona Sul e acompanha as barbaridades perpetradas pela legião de favelados que lotam os ônibus, saqueiam os supermercados, sujam as praias e revoltam a classe média. Há cenas de preconceito explícito, como quando uma garota afirma sentir vergonha daquela “sub-raça.” Um garotão bronzeado, por sua vez, alega que não tem nada contra pobres, mas que é impossível e anti-higiênico dividir as areias da praia com aquela horda de anarquistas.
É puro Cinema Soviético: estão lá as premissas sociais, econômicas e ideológicas que motivaram a estética de Eisesten e de todos os lacaios do comunismo primitivo. O “Plano Guia” é a viagem, desde os mais distantes subúrbios, até a Zona Sul, em trens lotados e ônibus onde se dependuram surfistas alucinados.Pequena disgressão com toque de Cinema Etnográfico ao enfocar os mais variados matizes de frangos, farofas, e marmitas. Alguns sambas e afogamentos depois, a volta, ainda mais caótica, para os subúrbios. Uma sortuda consegue carona no carro com mais onze pessoas. No bauzão, os jovens voltam surfando e fumando maconha alegremente. Finalmente, cenas bisonhas de bêbados tirando as calças no meio da rua.
O Cidadão Civilizado, representado ora pelo cobrador, ora pelo policial, o banhista ou o funcionário do supermercado, é o tempo inteiro alvo de zombaria do mundo paralelo suburbano que vem, suja, saqueia e assusta. Nada parece dissuadí-los da sede por baderna. O próprio Eisesten, que já classificou a montagem como “o mais poderoso meio de composição para se contar uma história” e sabe que o herói de massa representa a “cristalização das imagens cinematográficas dos atores sociais do seu tempo” ficaria satisfeito ao notar a edição bem sacada do filme, com inserções de “Nós Vamos Invadir Sua Praia” e gritos selvagens dos usurpadores intercalados com as declarações politicamente incorretas dos entrevistados.
Os Pobres vão à praia é um filme lindo, com uma linguagem simultaneamente ingênua e maliciosa, que narra com uma desenvoltura cínica o constrangimento do Brasil Zona Sul com o Brasil Favela. Belamente editado e produzido, uma verdadeira relíquia do moderno documentário brasileiro.
É puro Cinema Soviético: estão lá as premissas sociais, econômicas e ideológicas que motivaram a estética de Eisesten e de todos os lacaios do comunismo primitivo. O “Plano Guia” é a viagem, desde os mais distantes subúrbios, até a Zona Sul, em trens lotados e ônibus onde se dependuram surfistas alucinados.Pequena disgressão com toque de Cinema Etnográfico ao enfocar os mais variados matizes de frangos, farofas, e marmitas. Alguns sambas e afogamentos depois, a volta, ainda mais caótica, para os subúrbios. Uma sortuda consegue carona no carro com mais onze pessoas. No bauzão, os jovens voltam surfando e fumando maconha alegremente. Finalmente, cenas bisonhas de bêbados tirando as calças no meio da rua.
O Cidadão Civilizado, representado ora pelo cobrador, ora pelo policial, o banhista ou o funcionário do supermercado, é o tempo inteiro alvo de zombaria do mundo paralelo suburbano que vem, suja, saqueia e assusta. Nada parece dissuadí-los da sede por baderna. O próprio Eisesten, que já classificou a montagem como “o mais poderoso meio de composição para se contar uma história” e sabe que o herói de massa representa a “cristalização das imagens cinematográficas dos atores sociais do seu tempo” ficaria satisfeito ao notar a edição bem sacada do filme, com inserções de “Nós Vamos Invadir Sua Praia” e gritos selvagens dos usurpadores intercalados com as declarações politicamente incorretas dos entrevistados.
Os Pobres vão à praia é um filme lindo, com uma linguagem simultaneamente ingênua e maliciosa, que narra com uma desenvoltura cínica o constrangimento do Brasil Zona Sul com o Brasil Favela. Belamente editado e produzido, uma verdadeira relíquia do moderno documentário brasileiro.
Assinar:
Postagens (Atom)
